(Tradução) Queridas lésbicas e queridos gays – sou bissexual e vocês me trataram como lixo. Cansei de vocês.

Texto traduzido para divulgação em grupo específico. Sem revisão adicional.

Texto de Beth Sherouse. Publicado originalmente com o título: “Dear Lesbians and Gays – I’m Bisexual and You Treated Me like Crap; I’m done with you”, no site Medium em 25/01/2017.

Meus queridos gays e queridas lésbicas –

Amei vocês desde antes de conhecê-los. Desde criança, eu me atraia pela sua sexualidade transgressiva e expressão de gênero, a coragem de vocês de ser quem são, mesmo em face da opressão, seu lindo arco-íris e seus fabulosos sapatos.

Marchei nas paradas de vocês, me juntei e organizei protestos em prol dos seus direitos, me voluntariei nos grupos locais e trabalhei para sua organização nacional mais proeminente.

Amei vocês de modo intenso e os defendi de maneira incansável. Mas, finalmente, aceitei o fato de que meus sentimentos nunca serão correspondidos, já que sou uma mulher bissexual e vocês me mostraram diversas vezes que não estão aqui por mim, nem pela minha comunidade, mesmo levando em consideração as disparidades que encaramos, em comparação à vocês e à comunidade não LGBT.

Quando fazia pouco tempo que havia saído do armário, eu co-fundei a primeira organização estudantil LGBT na Universidade Southern Baptist, juntamente a uma linda e charmosa colega de classe lésbica, por quem me apaixonei loucamente. Ela foi a primeira de muitas que me disseram para “escolher” ser lésbica.

Também teve o momento em que estava em um show de drags e a performer veio e me perguntou porque eu estava em um bar gay. Eu disse “sou bissexual” em seu microfone e ela riu, dizendo “oh, querida, todos sabemos que isso é só um ponto de parada antes de chegar no seu destino final”.

Na pós-graduação, uma amiga “hetero”, em várias ocasiões me chamava de voluptuosa e insinuava que eu era promíscua, toda vez que eu comentava sobre a minha bissexualidade, mesmo eu tendo transado com ela diversas vezes. Mas ela não era gay e, aparentemente, bissexualidade não era uma opção válida.

Também tiveram inúmeras vezes nas quais vocês disseram que a minha identidade não era real, era só uma fase, ou que eu não estava comprometida com a causa, pois escolhia ter uma passabilidade heterossexual.

Muitas vezes me perguntei se vocês não tinham razão, se a minha identidade era estranha, se não estava mentindo pra mim mesma sobre a atração sexual que senti por diversas pessoas espalhadas pelo espectro de gênero. E , sinceramente, pensei que se, talvez, eu continuasse lutando por vocês, por todos nós, provaria que eu era merecedora do amor e aceitação de vocês.

Daí, aceitei uma bolsa de dois anos para trabalhar na maior ONG nacional de direitos da população LGBT. Eu sabia que como em qualquer outra organização grande de direitos sociais, eles tinham um passado conflituoso com a comunidades trans e bi e uma predileção por posições políticas mais centrais. Mas achei que poderia mudar isso de dentro para fora. Que bissexual mais tola eu fui.

De longe, a bifobia mais gritante que sofri foi durante os meus dois anos de trabalho na campanha Human Rights. Quando comecei, em 2014, o site da campanha não tinha nenhuma fonte de informações específicas sobre bissexualidade, muito menos páginas de artigos relacionados à uma das quatro identidades que ela dizia representar.

Os trabalhadores que se identificavam como bissexuais eram raramente empoderados ou permitidos a fazer trabalhos voltados à comunidade bi, isso se eles tinham se assumido para seus colegas gays e lésbicas.

Eu conheci uma líder de comunidade bi e tentei desesperadamente sanar os conflitos sérios e acabar com a negligência de longa data da organização. Eu acreditava que a HR poderia fazer mais pelo grupo que constituía metade da comunidade LGBT.

Nos meus dois anos de trabalho, com o apoio e o feedback de um pequeno grupo de maravilhosos colegas de trabalho, eu criei o conteúdo para a página bissexual do site da HR, escrevi de três a cinco publicações pra a página e editei uma quarta publicação, todas em parceria com organizações nacionais para bissexuais, escrevi quase todos os posts do blog relacionados à bissexualidade, organizei uma fonte de informações para meus colegas de trabalho que se identificavam como queer, panssexuais e fluídos (bi+), trabalhei com a equipe de diversidade, para trazer líderes comunitários bi para passarem por treinamentos, desenvolvi e conduzi treinamentos sobre a cultura bi, destinados à membros do conselho, trabalhadores e voluntários e coordenei todas as programações da HR voltadas para a Semana da Visibilidade Bissexual.

Quando a líder de comunidade que se identificava como bi, Robyn Ochs, veio para fazer um treinamento na HR, um gay cis branco, que dirigia todos os trabalhos em rua da organização disse “Sabe, eu nunca penso sobre as pessoas bissexuais.” Claramente não pensa.

Seis meses se passaram desde que eu deixei de trabalhar na HR e, aparentemente, uma certa quantidade de posts em blogs e em redes sociais durante a Semana da Visibilidade foram a única coisa que a organização fez durante minha ausência. Metade dos meus colegas bi+ não estão em posição de fazer o mesmo trabalho que eu fazia.

Claramente, o que começou com uma bissexual irritada, com vontade de mudar a estrutura da organização, acabou quando essa mesma bissexual deixou de trabalhar lá.

Para ser justa, a HR não é a única organização nacional LGBTQ+ com esse tipo de problema. Diversos grupos nacionais tem um péssimo hábito de usar “gay e transsexual” como sinônimo para “comunidade LGBTQ+”, apagando completamente os que não se encaixam em “gay” e “transsexual”.
Mesmo que algumas organizações nacionais LGBTQ+ tenham empregados abertamente bi+, que estão fazendo maravilhosos trabalhos voltados especificamente para a visibilidade bissexual, os números estão caindo e ninguém além dessas pessoas está fazendo esse tipo de trabalho nas organizações.

Para deixar mais claro, quando pessoas bissexuais não estão presentes para promover a visibilidade e a mudança de hábitos nas organizações, o trabalho não é feito, pois a maioria de vocês, lésbicas e gays, não ligam a mínima para nós. Ainda assim, continuamos lutamos por e com vocês.

Quando a Amber Heard foi espancada pelo Johnny Depp e a mídia culpou a sua bissexualidade, vocês se calaram. Quando militantes da direita atacaram publicamente uma líder de comunidade nativa e bi+, que fez um pronunciamento em um evento na Casa Branca, novamente vocês ficaram em silêncio. Quando o ícone gay Boy George fez declarações bifóbicas no Twitter, novamente: silêncio.
.
Nas palavras da querida e dedicada bi+ Faith Cheltenham, ex-presidente da BiNet USA e minha mentora –

“Até que os bissexuais deixem de ser os vocês-sabem-quem da comunidade LGBTQIA, vamos continuar sendo os sacos de pancada dos gays e dos héteros, sem nenhum tipo de respaldo. Se bissexuais acreditam que existem impedimentos sistemáticos para que eles não acessem formas de ajuda, estão corretos.

Até que bissexuais encontrem representações legais a nível de organizações, estado e união, políticas públicas estaduais e nacionais, tanto para bis quando para trans, ou grupos de apoio imediato, devemos continuar apontando a nossa invisibilidade.”

Lésbicas e gays, essa bissexual irritada está cansada das migalhas de vocês. Estou exausta de lutar por vocês, em diversas ocasiões e de isso não ser recíproco. Estou cansada de encarar uma maior carga de bifobia de organizações que deveriam nos representar do que eu encaro do mundo cis heterossexual.

Estou cansada de tentar provar que eu sou merecedora do seu amor, ao mesmo tempo em que vocês me invisibilizam.

Pessoas bissexuais estão cansadas de ouvirem que as nossas vozes, nossas pautas e nossas vidas são uma distração dos “reais” problemas, quando nós somos metade do que vocês chamam de comunidade LGBT.

E mais do que tudo, estou cansada de assistir outros ativistas bi+ – pessoas lindas, talentosas e resilientes – se acabarem, colapsarem, serem despedidas por aguentarem o tranco e resistirem, quando vocês tornam as coisas tão horríveis que fica difícil nos sentirmos à salvo e validados.

Mesmo depois de 15 anos fora do armário, minha voz ainda falha de vez em quando, quando digo a palavra “bissexual’ em voz alta para um de vocês, fico ansiosa, esperando os comentários engraçadinhos, os olhos revirados, a negação da minha existência.

Me deixem esclarecer o que está em disputa aqui, lésbicas e gays. Pessoas bissexuais estão, literalmente, morrendo por conta da sua negligência, invisibilização e exclusão. Estamos adoecendo, física e mentalmente, mais do que vocês, pois estamos nos escondendo dentro das nossas comunidades e dos planos de saúde.

A nossa juventude encara mais bullying e desrespeito e maiores taxas de suicídio do que colegas gays e lésbicas, enquanto temos menos respaldo social.

61% das mulheres bissexuais serão estupradas, espancadas ou perseguidas pelos nossos parceiros e parceiras e como a experiência passada pela Amber Heard nos mostra, nossas identidades serão culpadas pelos abusos que sofreremos. Para as pessoas da comunidade bi+ que também se identificam como trans, que são deficientes e não-brancas, as dificuldades aparecem em dobro.

Eu assisti à HR cavar sua própria cova em 2016, novamente ignorando as vozes dos membros mais marginalizados da comunidade LGBTQ e endossando, assim como financiando, campanhas políticas de um candidato que esperou até o último momento para comentar sobre o direito ao casamento da comunidade.

Eu já esperava pelo momento no qual perguntariam à bissexuais, queers, transsexuais, não-brancos e outros grupos marginalizados da comunidade LGBT para deixarem de lado suas pautas e ranços com lésbicas e gays cis brancos, em prol da preservação do direito ao casamento.

E, obviamente, aqui estamos, lutando por migalhas à uma mesa na qual nunca fomos bem vindos e, mais uma vez, nos dizem que nossas pautas – nossa sobrevivência – não precisam de atenção, visibilidade, financiamento ou recursos.

A comunidade LGBT passará por provações sob a presidência de Donald Trump e eu desisto de vocês, gays e lésbicas. Não os amo da mesma forma que antes. Vocês partiram meu coração muitas vezes. Não irei mais lutar pela liberdade de pessoas que ativamente perpetuam a opressão da minha comunidade.

Estou muito ocupada tentando sobreviver.

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