(Tradução) 6 formas em que a misoginia está afetando a comunidade LGBTQIA+

Texto traduzido para divulgação em grupo específico. Sem revisão adicional.

Texto de Brynn Tannehill. Publicado originalmente com o título “6 Ways Femmephobia is Harming LGBTQIA+ Communities” no site EverydayFeminism em 26/02/2016.

Uma vez, alguém disse que as pessoas tem empatia suficiente somente para se aceitarem. Acredito que essa pensamento seja, frequentemente, aplicável, principalmente quando estamos falando da comunidade LGBTQIA+.

No período em que trabalhei com os direitos de pessoas trans militares, foram incontáveis as vezes que ouvi lésbicas e (principalmente) gays que foram sujeitados ao “Don’t Ask, Don’t Tell”*, se opondo à pessoas trans que querem se tornar militares.

Eu os ouvi usando os mesmos argumentos que já foram usados contra outras pessoas LGBQ+, somente à alguns anos atrás.

Eles/Elas são nojentos/as.

Eles/Elas são uma distração.

A carreira militar não é um experimento social.

Vestiários.

Os argumentos usados para opor a presença de pessoas trans quase nunca são focados em homens trans. São usados, majoritariamente, para opor a presença de mulheres trans – e a causa principal é a misoginia.

Isso não somente afeta as mulheres trans de forma negativa; também pode ser vista, de formas diversas, na comunidade LBGTQIA+, que é afetada diretamente por esse ódio ao feminino. Porém, a comunidade trans é a mais afetada.

Uma das facetas da misoginia é o medo e o ódio por pessoas e coisas que são consideradas femininas, afeminadas e/ou andróginas, independe do gênero.

Uma consequência dessa faceta é a opressão de qualquer pessoa (homens, mulheres e pessoas não binárias) que performa um gênero que é percebido por outros como sendo feminino, devido ao uso de certas vestimentas, comportamentos ou maneirismos.

Um recente artigo apontou como essa parte da misoginia começa cedo e está profundamente enraizada na nossa cultura: “A quantidade de pais com os quais já conversei, que acham que falharam no feminismo pois suas filhas gostam de laços e bonecas, é alta; é muito raro ver um responsável por um menino se sentir triste pois o filho que gosta de Batman e Star Wars não desafia os papéis de gênero.”

O ódio ao feminino parece algo que seria muito mais recorrente na cultura heterossexual, cisgênera e heteronormativa. O problema é que o ódio ao feminino está integrado em todos os nichos da comunidade LGBTQIA+ – e os impactos negativos afetam todas as pessoas dessa comunidade.

Aqui estão esses impactos:

  1. Homens gays são afetados por ódio ao feminino de forma externa e de forma interna
    É notório, há mais de uma década, que anúncios de homens gays solteiros, em sites específicos, frequentemente apresentam o termo “não me relaciono com gordos e/ou afeminados.”A passabilidade heterossexual é valorizada e ser afeminado é visto como um esteriótipo vergonhoso por uma grande parcela da comunidade gay. Parecer qualquer coisa, que não seja 100% esteriotipicamente masculino, é visto como sinal de fraqueza e falta de liderança.
    Enquanto a comunidade LGBTQIA+ é bem crítica de religiões que dizem que homens gays serão amados se assim o deixarem de ser, dizer a seus companheiros que eles não serão amados se não possuírem passabilidade heterossexual não acaba sendo muito diferente do que alguns indivíduos religiosos fazem.
    Algumas pessoas concluíram que isso deriva do comportamento, de certas partes da comunidade, de tentar popularizar a não-heterossexualidade seguindo uma série de comportamentos respeitáveis. Existe o medo de que, se a comunidade LGBTQIA+ não parecer e soar como qualquer outro grupo de pessoas, ela será rejeitada por ser muito “diferente” para ser aceita.

    Outras especulações dizem que alguns homens gays adotam posturas misóginas como um mecanismo de defesa, para demonstrar que são “homens de verdade” também. Em algum nível, o ódio ao feminino dentro da comunidade gay acaba realmente sendo um mecanismo de defesa: os que menos se destacarem, acabam por conseguirem escapar de situações de violência ou discriminação.

    Porém, alguns membros da comunidade LGBTQIA+ rejeitam esse mecanismo, celebrando as diferenças e as características que fazem cada um ser o que é.

  2. O ódio ao feminismo isola lésbicas
    Tanto homens gays quanto mulheres são encorajados a serem mais masculinos, mas por razões muito diferentes:Em meios lésbicos, a invisibilidade femme* pode ser um subproduto do ódio ao feminino. A pressão para “se masculinizar” pode definir a validade da sexualidade de alguém.Lésbicas que performam seu gênero de forma mais esteriotipicamente feminina são consideradas menos radicais, menos feministas, mais “passáveis” e mais interessadas em sustentar o patriarcado.

    Em algumas ocasiões, uma performance de gênero esteriotipicamente feminina é usada para questionar a validade da sexualidade de uma lésbica ou para dizer que essa sexualidade é somente “uma fase” ou que essa lésbica é, na verdade, bissexual.

    Esse é um esteriótipo negativo tanto para lésbicas quando para mulheres bissexuais, baseado na expressão de gênero e na preconcepção que as pessoas tem de pessoas polissexuais.

    Essas normas de performances de gênero consideradas aceitáveis não facilitam a vida de nenhuma mulher não-heterossexual e elas coagem pessoas a esconderem suas verdadeiras identidades – que é exatamente contra o que estamos lutando desde o começo.

    E o cerne desse problema é o ódio ao feminino que as pessoas tem internalizado.

  3. O ódio ao feminino está relacionado com a invisibilidade bissexual
    Esse ódio afeta as mulheres bissexuais, também. Muitas lésbicas classificam as mulheres femme são heterossexuais ou bissexuais.Uma amiga minha, lésbica, explicou dessa forma: “Quando ela está usando sapatos masculinos e tem cabelo curto, a chance de  apanhar caso eu demonstre interesse é menor.”Algumas pessoas bissexuais acreditam que a invisibilidade bi e o ódio ao feminino estão diretamente relacionados. Essa relação se dá pelo esteriótipo de que toda mulher femme é bissexual e que pessoas bissexuais (particularmente mulheres) são, na verdade, heterossexuais.Em outras vezes, lésbicas suspeitam que femmes lésbicas sejam bissexuais, assim, evitam de se relacionarem com elas, pois acreditam que existe a possibilidade que essas mulheres voltem a namorar homens.Pessoas bissexuais perfazem mais da metade da comunidade LGBTQIA+ e também é uma sexualidade presente no espectro. Por conta disso, muitas mulheres acabam sendo invisibilizadas e marginalizadas, em específico.Um dos maiores problemas enfrentados pela comunidade bissexual, e por mulheres bissexuais, é o apagamento e a invisibilidade.

    O ódio ao feminino é uma das causas desse problema, mas quase não é citado em discussões que se propõe à combater esses problemas sistêmicos.

  4. O ódio ao feminino estimula a invisibilidade de homens trans
    De forma irônica, quando um homem trans entra no processo de transição, seus salários aumentam em 7%. Quando uma mulher trans entra em processo de transição, seu salário cai, em torno de 32%.O neurobiólogo (e homem trans) Ben Barres já passou por essa situação. Ele notou que pessoas tendiam a apreciar muito mais seu trabalho se não tivessem o conhecimento que ele era um homem trans. Depois de apresentar seu trabalho, ele ouviu um membro da platéia comentar “Ben Barres ministrou um ótimo seminário hoje, mas o trabalho dele é muito melhor que o da irmã dele.”Apesar de isso parecer uma boa coisa para homens trans, não é bem assim que as coisas acontecem. Essa atitude acaba incentivando com que a pessoa permaneça no armário, isolada.Homens trans conseguem “passabilidade” com mais frequência que mulheres trans, dessa forma, possuem a opção de não se revelarem com mais frequência. Conheço alguns homens trans (alguns que eram professores) que decidiram se manter no armário por conta do estigma com pessoas trans e pelo medo de não ser visto como um “homem de verdade.”Esconder essa informação requer uma disciplina perfeccionista, como por exemplo, limitar a quantidade de gente que tem acesso à essa informação. Com frequência, isso inclui outros membros da comunidade LGBTQIA+.

    Dessa forma, pode ser que não seja coincidência o fato de que homens trans possuem uma taxa de tentativas de suicídio maiores que de mulheres trans. O isolamento social, repetidamente, se mostrou como causador das tentativas de suicídio e o ódio ao feminino cria um incentivo perverso para que homens trans se isolem.

  5. Mulheres trans estão diretamente ligadas com o ódio ao feminino – e os resultados disso são devastadoresTalvez, nenhum segmento da comunidade LGBTQIA+ sofra mais com os efeitos do ódio ao feminino que o das mulheres trans. Elas são os alvos favoritos de todo o ódio e intolerância que é direcionado as pessoas trans.Das 23 pessoas trans assassinadas nos Estados Unidos em 2015, todas eram mulheres trans.A pioneira do queer e feminista Judith Butler revelou em uma recente entrevista que:“Matar é um ato de poder, uma forma de demonstrar dominação, até mesmo uma forma de dizer ‘sou eu quem decide quem vive e quem morre’. Assim, o ato de matar estabelece o assassino como soberano no momento que a morte ocorre, e essa é a forma mais tóxica que a masculinidade pode tomar. Mulheres trans abriram mão da masculinidade, mostrando que que podem ser, e são, muito ameaçadoras para um homem que quer demostrar poder como algo intrínseco de quem ele é.”

    A rejeição de tudo que é feminino por muitos homens gays pode ter levado à ataques abusivos feitos por líderes do movimento, direcionados à mulheres trans.

    Jim Fouratt, um antigo líder do Gay Liberation Front e participante dos protestos de Stonewall acusou “gays academicistas e jornalistas sensacionalistas” de “apoiarem essa nova tendência de empurrar gays e lésbicas para se subjugarem a manipulações corporais doloridas e perigosas injeções hormonais, para que eles se adequem a definição convencional do que é masculino e do que é feminino, para se tornarem heterossexuais.”

    Dois dos mais proeminentes propositores de uma teoria irrefutável e pseudo-científica, que foi criada para agredir mulheres trans são dois psicólogos, gays. A teoria é usada por intolerantes religiosos para argumentar que pessoas trans (particularmente mulheres) deveriam ser legalmente inexistentes.

    Um desses dois psicólogos zomba da comunidade trans, de forma periódica e parece se dar muito bem com feministas da segunda geração, que também pregam o fim da comunidade trans.

    Alguém poderia desconfiar que algo que ele enxerga em si mesmo que o faz dirigir tanto ódio à mulheres trans, que ele só as vai tratar com dignidade se assumirem que são pervertidos nojentos.

    Ele defende a ideia de que mulheres trans não são mulheres, apoia o uso de tratamentos corretivos em adolescentes trans e divulga histórias sobre pessoas que se arrependeram da transição. E ainda assim, ele tem a pachorra de dizer que é um aliado, contanto que pessoas trans concordem que suas identidades derivam de transtornos sexuais.

    De forma semelhante, durante o debate sobre a inclusão de identidade de gênero no texto da Federal Employment Non-Discrimination Act (ENDA)* em 2007, um dos defensores da lei e representante democrático e gay, Barney Frank foi perguntado sobre se ele defenderia essa inclusão.

    Ele foi flagrado gritando “Nunca!” na entrevista, em um restaurante lotado e começou a resmungar sobre “pênis em banheiros”, mesmo que o ENDA, especificamente, excluía banheiros de seu texto. Em 2007, o diretor executivo Joe Solmonese quebrou sua promessa de apoiar o ENDA somente se o texto incluísse identidade de gênero e seguiu na mesma direção de Frank, defendendo a não inclusão de identidade de gênero no texto da lei.

    Em 2015, um relatório interno da HRC (Human Rights Campaign) vazou, e ele dava indícios que o comportamento dentro da organização era “enraizado na cultura branca, masculina, que julgava quem não se encaixava nesses moldes.” Um membro da staff entrevistado foi direto: “Eu presencio o ódio ao feminino – homens afeminados e mulheres são considerados importantes.”

    Essa violência institucional contra mulheres trans não provém somente de homens gays. A ex-diretora executiva da HRC, Elizabeth Birch disse em certa ocasião que a inclusão da identidade de gênero no ENDA iria somente acontecer “só por cima do seu cadáver.”

    Achar espaços seguros em espaços de mulheres não-heterossexuais tem se mostrado uma tarefa difícil para mulheres trans, mas não tanto para homens trans.

    Homens trans, muitos que inicialmente se identificaram como lésbicas, são frequentemente aceitos (e reverenciados) em espaços de mulheres não-heterossexuais. Uma dessas mulheres recentemente descreveu a vez que um homem trans chamou bastante atenção em um desses espaços, para uma platéia de lésbicas em um bar.

    Mulheres trans quase nunca são bem-vindas nesses espaços, independentemente se tem “passabilidade” ou se fizeram a transição cirúrgica.

    Mulheres trans são frequentemente acusadas de serem caricaturas de mulheres, se elas performarem de forma mais feminina, mas possuem suas identidades questionadas quando performam de forma menos feminina.

    Como resultado disso, mulheres trans não se sentem seguras em expressarem seu gênero, já que podem ser rejeitadas de qualquer forma.

  6. O ódio ao feminino é uma forma de misoginia internalizada
    O ódio ao feminino representa a rejeição da noção de que tudo que é considerado feminino é lindo, valioso ou forte. Enquanto algumas pessoas dizem que a feminilidade só existe para agradar o olhar masculino, essa teoria se mostra falha quando alguém questiona se isso também se aplica para homens afeminados.Esse argumento não nos ajuda a alcançar equidade.Ele nos divide e nos coloca uns contra os outros, além de minimizar o valor da diversidade dentro da comunidade.Em um movimento baseado no conceito de valor universal, esse argumento é inaceitável.

    Já chegou a hora de fazermos um esforço consciente para pararmos de desvalorizar coisas diferentes, pessoas diferentes, que não se encaixam nos padrões sociais e esteriótipos de masculinidade ideal.

NOTAS DE TRADUÇÃO:

*Don’t Ask, Don’t Tell foi uma prática legal adotada em ambientes militares estadunidenses que proibia pessoas não-heterossexuais de falarem sobre sua sexualidade e qualquer coisa ligada ao assunto, com o risco de punição caso não seguissem as diretrizes.

*Femme pode se aplicar tanto à mulheres heterossexuais que são feminilizadas quando a mulheres lésbicas e bis. São mulheres que performam o esteriótipo social do que é ser feminino, no que diz respeito a aparência, comportamento e trejeitos.

*Federal Employment Non-Discrimination Act (ENDA) é um projeto de lei que proíbe a discriminação baseada na orientação sexual de alguém, no que diz respeito a empregadores. Ocorreu uma discussão sobre a inclusão da proibição de discriminação baseada na identidade de gênero, que iria garantir direitos à população trans estadunidense.

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