(Tradução) I get bi with a little help from my friends

Texto traduzido para divulgação em grupo específico. Sem revisão adicional.

Texto de McKenna Ferguson. Publicado originalmente com o título “I get bi with a little help from my friends” no site Bisexual.org em 22/04/2017.

No ano passado, antes de me deslocar por 5 estados em direção à ensolarada Los Angeles, eu queria fazer um bota fora com os meus amigos e amigas mais próximos. Eu subi no meu Ford e dirigi da minha cidade natal até a cidade aonde fiz universidade, local de residência da maioria dos meus amigos. Depois de juntar todo mundo, enquanto dirigia, tive uma epifania estranha, que compartilhei com todas as pessoas que estavam no carro:

“Não tem ninguém aqui que se identifique como heterossexual.”

Ninguém mesmo. Nem um pouquinho. Em um carro cheio, não tinha uma pessoa que se identificava como heterossexual. Bi ou não-hetero sim. Mas ninguém que se colocaria abaixo de um 2 na escala Kinsey.¹

Comecei a especular o porquê disso – porque a maioria dos meus amigos e amigas mais próximos eram da comunidade LGBTQ. Não foi tão difícil de descobrir; é porque eles me entendem. Eles sabem das dificuldades e das alegrias de ser uma não-hétero, mais do que alguém heterossexual poderia entender.

Não quero dizer que amizades com pessoas hétero não são boas. Todas elas são, cada uma de sua forma. Não sou alguém que recusa amizade com alguém e, na verdade, acredito que amizades diversas são importantes no processo de nos tornarmos seres humanos decentes.

O que quero dizer é que todos gostamos de nos cercarmos de pessoas que nos entendem e que conseguem se identificar com os nossos problemas. No trabalho, minha chefe, heterossexual e cis, não consegue entender exatamente como o comentário homofóbico de um colega de trabalho pode me afetar. Meu parceiro de longa data, heterossexual e cis, mesmo tentando, nunca poderá entender completamente como eu me sinto em uma parada do orgulho LGBTQIA. Um membro de família, hétero e cis, nunca poderá compreender o quão importante foi pra mim ter um médico me perguntando se eu era sexualmente ativa com “homens, mulheres ou ambos?”. Mas os meus amigos não-hétero podem.

Ter amigos próximos não-héteros na vida significa que você não precisa explicar algumas coisas, pois eles e elas entendem. Existem algumas coisas que você não precisa falar, pois eles e elas já passaram por situações parecidas.

Eu me identifiquei quando tinha 18 anos, foi quando saí do armário e comecei a me identificar publicamente como bi. Pelos próximos anos, conheci outros colegas não-heterossexuais e criei laços com essas pessoas. Quando comecei a criar uma comunidade LGBTQ ao meu redor, existiram muitos momentos onde me senti muito grata por ter a oportunidade de compartilhar experiências com essas pessoas, sabendo que isso seria algo recíproco, que eu não poderia compartilhar com meus amigos hétero.

Na faculdade, quando uma conhecida me disse que acreditava que a bissexualidade não existia e que eu descobriria o que eu “realmente gostava, cedo ou tarde”, meus amigos bi estavam revirando os olhos antes que eu pudesse terminar de contar a história. Eles também já passaram por isso. Toda pessoa bissexual já passou por isso. Todos nós entendemos. Todos nós já passamos por experiências parecidas. Sabemos bem como são essas dificuldades.

Há dois verões atrás, quando um colega de trabalho fez comentários homofóbicos e a minha melhor amiga do trabalho – que também é não-hétero – ficou sabendo, imediatamente me mandou uma mensagem de texto, com o propósito de me deixar avisada. Ela queria que eu soubesse pois se a situação fosse reversa, ela também gostaria de ser informada. Mesmo quando vários colegas de trabalho héteros não entenderam qual era o problema e deixaram subentendido que eu estava exagerando, ela ficou tão frustrada quanto eu, pois isso a afetava da mesma forma que me afetava.

Mais recentemente, no dia de eleição, quando os resultados foram divulgados e o novo presidente e o vice-presidente fizeram seus pronunciamentos, recebi diversas ligações de diversos amigos não-hétero. Eu não precisei contar pra eles o quão assustada eu estava sobre os rumos da comunidade LGBTQ, os nossos direitos e equidade, sobre as atuais e futuras leis, pois eles já sabiam e também sentiam-se da mesma forma. Choramos juntos e nos apoiamos, sem medo de sermos mal interpretados ou acusados de exagero.

É importante ter amigos que são diferentes de nós. Criar relações com pessoas que são diferentes nos ajuda a observar o mundo sob outras óticas. Mas também é importante – vital, inclusive – ter amigos que são bem similares em alguns aspectos. Eu realmente acredito que quando se é uma pessoa não-hétero, ter amizades com pessoas que assim também o são é uma necessidade. Em uma sociedade heteronormativa, quando direitos da comunidade LGBTQ ainda são debatidos, precisamos de conexão. Precisamos afastar o sentimento de isolamento. Precisamos de um time. De uma comunidade. De uma família.

Os meus amigos não-héteros, incluindo aqueles que estavam comigo no carro, são salvadores, muitas vezes. Me ajudam a segurar a barra e a me fortalecer. Nenhuma pessoa não-hétero deveria viver a vida sentindo-se sozinha e eu agradeço todos os dias pelas pessoas extraordinárias que me fazem sentir confortável e pertencente.

 ¹ Escala de Kinsey é uma escala criada pelo biólogo Alfred Kinsey, pesquisador de comportamento e sexualidade humana. Em sua versão original, produzida na década de 40, a escala vai de 0 a 6:

 

0 – exclusivamente heterossexual
1 – predominantemente heterossexual, apenas ocasionalmente homossexual
2 – predominantemente heterossexual, mas mais do que ocasionalmente homossexual
3 – Igualmente heterossexual e homossexual
4 – Predominantemente homossexual, mas mais do que ocasionalmente heterossexual
5 – Predominantemente homossexual, apenas ocasionalmente heterossexual
6 – Exclusivamente homossexual


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