(TRADUÇÃO) Essa vida bi: Negra, bi e sexy

Screenshot_2017-12-17_18-38-31Texto traduzido para divulgação em grupo específico. Sem revisão adicional.

Texto de Bri Carter. Publicado originalmente com o título “This Bi Life: Black, Bi, and Sexy” no site Bi.org em 10/02/2016.

Começarei dizendo que intimidade é algo difícil para todos e todas nós. Como com tantas outras coisas muito importantes na vida, ninguém nos ensina de verdade como achá-la, mantê-la ou nutri-la. Com isso dito, todas as nossas jornadas são diferentes e as intersecções aonde nossas identidades se cruzam podem alterar perspectivas e mudar realidades.

Começando pelo fato de existirmos em uma sociedade patriarcal, que sempre coloca homens cisgêneros¹ heterossexuais como caçadores e mulheres cisgêneras heterossexuais (todas as outras pessoas, na verdade) como as caças . Falando sobre minha perspectiva, minha realidade, essa é a primeira camada. Essa é a camada que me ensinou a “guardar minha virtude” mas que também me ensinou que “se você não realizar os desejos dele, outra garota os realizará”. Essa foi a camada que me ensinou a aceitar tudo calada, mesmo sem vontade, mas também a agir como um estrela pornô se assim fosse sugerido. Essa é a camada que me ensinou que a minha sexualidade não me pertencia. Que sexo não era para mim. Que se eu o evitasse, eu era pudica. Que se eu o praticasse, eu era promíscua. Que se eu o aproveitasse, eu era uma vadia. Mas que não importando o que fosse, esse era o meu papel.

Outra faceta da minha realidade é que sou negra. Uma realidade que me orgulha muito, uma realidade que traz consigo regras muito específicas sobre intimidade. Pense sobre o mundo, sexo e desejo. Agora pense sobre essas coisas e coloque uma mulher negra no centro de tudo isso. Historicamente, mulheres negras foram hipersexualizadas.  Vistas como exóticas, que somente serviam como objetos do desejo atrás de portas fechadas, enquanto eram abertamente castigadas, pintadas como vadias e consideradas como não dignas de amor em público. Mulheres negras são, estatisticamente, consideradas como últimas opções em plataformas de namoro online. Somos vistas não como parceiras, mas como meras formas de saciar o desejo.

Um exemplo da minha experiência pessoal. Conheci um garoto em um bar, um garoto fofo, um garoto branco. Tivemos um lance legal. Ficamos juntos por horas. Acabamos não transando, mas trocamos nossos números de telefone. Na manha seguinte, muito feliz com o que eu acreditava ser um novo romance, eu procurei pelas contas dele em redes sociais. Eu achei seu Twitter e vi que ele tinha feito uma série de postagens sobre a noite anterior. Entre essas postagens, tinha uma resposta dele à um amigo, que eu também tinha conhecido, dizendo “caraca, irmão, eu quase peguei uma”. O contexto me fez entender que o “uma” se referia a uma garota negra. Isso não é um fato isolado. Não consigo nem dizer a quantidade de homens não-negros, predadores, com o discurso de que “nunca estive com uma garota negra” se aproximaram de mim. A maioria das mulheres são vistas como conquistas sexuais uma vez ou outra, mas mulheres não-brancas são, como dito antes, conquistas sexuais exóticas e incomuns.

Bissexual é uma palavra que, por muito anos, foi banida dos resultados de busca do Google por ser considerada como “conteúdo explícito”.  Uma palavra que tem categoria própria em sites pornográficos (juntamente com “mulata”). Uma palavra que faz homens cisgênero salivarem com a suposta oportunidade de sexo à três. Uma palavra que, quando adicionada em qualquer perfil de namoro online, atrai mensagens e pedidos de casais que procuram por parceiras de brincadeiras. Como se minha orientação sexual fosse mais importante que a minha humanidade e que, automaticamente, ela precedesse qualquer vontade de me relacionar sem ser de maneira sexual.

Foram nesses mesmos sites de namoro que tive que lidar com uma rejeição pesada de uma lésbica, por conta da minha bissexualidade. Muitas delas vão dizer explicitamente que não se relacionam com mulheres bissexuais. Minhas favoritas são as que, pelo menos, te salvam da rejeição colocando em seus perfis “não procuro casais, nem homens, nem pessoas bi”. Existem memes por aí que caçoam de mulheres bi e sua suposta falta de habilidade para dar prazer sexual à outras mulheres, porque no fim, elas só são mulheres heterossexuais “brincando” de gay.

Também existe essa crença cega de que pessoas bi são naturalmente mais propícias à infidelidade que outras pessoas. E pra sair do básico, existem pessoas que rejeitam compromissos com qualquer pessoa bissexual porque elas acreditam que a bissexualidade reforça o binário – mesmo muitas pessoas trans e não-binárias² se identificando como bissexuais (me incluo nessa categoria).

Basta dizer que a minha realidade é que intimidade, sexualidade e amor não se cruzam muito nas minhas intersecções. Eu me acostumei, atualmente, a performar um papel. Sendo consciente, eu sempre soube o que era esperado da minha sexualidade. Eu aprendi muito bem a arte de flertar e, em certas ocasiões, a arte do sexo casual sem nenhum significado. Eu também entendo  a forma como o mundo me vê, sexualmente, por conta das supostas implicações da minha raça e da minha sexualidade. Eu tento não me incomodar com essas coisas e, usualmente, a quantidade certa de álcool consegue abafar os questionamentos que tenho acerca dos motivos que as pessoas têm para estarem se relacionando comigo.

Como sobrevivente de abuso sexual e estupro, ter controle sobre a minha sexualidade e agir de acordo com meus desejos têm sido libertário. A parte que mais me faz entrar em conflito é o amor. Eu não consigo nem falar a frase “fazendo amor”. Não somente porque isso parece antiquado, mas porque fora da performance de intimidade que o mundo espera de mim, sexo com uma pessoa com a qual me importo trás consigo uma lista enorme de inseguranças. Questões sobre se sou excitante o suficiente, se meu corpo desperta desejo, se eu causo fantasias nas pessoas, se eu sou “não-hetero” o bastante para sexo não-hetero. Essa última pergunta é a que mais me tormenta. Com ideias heteronormativas sobre como o sexo deveria ser, eu consigo fingir de acordo com essas ideia. Fora disso, me sinto simplesmente inadequada.

Tudo isso me faz questionar, desafiar e analisar como lidamos com intimidade nessas nossas muitas intersecções. O que alimenta nossos desejos e de que formas isso afeta nossas interações e nossos relacionamentos com outras pessoas? Eu adoraria existir em um mundo onde não me sinto constantemente competindo com estereótipos acerca das formas que eu deveria me relacionar com outros, sexualmente. Adoraria viver em um mundo onde expressar amor e desejo físico não fossem um desafio. Para mim, esse mundo é possível a partir do momento em que eu analiso essas questões e tenho diálogos abertos e honestos sobre elas. Espero que, em algum momento, eu consiga realmente me sentir a mulher sexy, negra, bi e demissexual³ que sou.

NOTAS DE TRADUÇÃO:

¹cisgênero é o termo utilizado para se referir a pessoa que se identifica, de forma geral, com o gênero que foi designado para si ao nascimento. (Ex: alguém que foi designada mulher ao nascer e que se identifica com esse gênero). Contrário de transgênero. 

²pessoas não-binárias são aquelas que, de alguma ou de várias formas, não se identificam exclusivamente com um gênero.

³demissexuais são pessoas que precisam de algum tipo de ligação emocional e/ou afetiva antes de iniciar qualquer tipo de relação de natureza sexual.

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